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NANOTECNOLOGIA APLICADA AO TRATAMENTO DE ÁGUA
A água é o recurso natural mais abundante na
Terra, com um volume estimado de 1,36 bilhões de
quilômetros cúbicos, recobrindo dois terços da
superfície do planeta sob a forma de oceanos,
calotas polares, rios e lagos. A água é
essencial à vida, o que significa que todos os
organismos vivos, incluindo o homem, dependem
dela para sobrevivência. É fundamental,
entretanto, que os recursos hídricos apresentem
condições físicas, químicas e microbiológicas
adequadas para utilização.
Antes de chegar à maioria das residências, a
água deve receber um tratamento de desinfecção
para assegurar a sua qualidade e segurança. No
entanto, estudos recentes indicam que existe no
mundo em torno de 1 bilhão de pessoas sem acesso
a água potável. Segundo a Organização das Nações
Unidas (ONU), a cada oito segundos morre uma
criança no planeta vítima de doenças
relacionadas ao consumo de água contaminada. O
relatório foi taxativo: mais pessoas morrem
devido ao consumo de água contaminada do que por
violência no mundo. De acordo com a Agência
Nacional de Águas, 17 milhões de brasileiros
ainda não têm acesso a água potável. Segundo a
UNICEF, na América Latina e no Caribe cerca de
20 mil crianças morrem antes de completarem
cinco anos de idade devido a diarréias agudas, o
que poderia ser evitado mediante o acesso a
condições de higiene adequadas, infra-estruturar
de saneamento e água potável.
O mesmo cenário desolador se verifica no Brasil
que ainda vive um momento em que muitos
brasileiros não têm acesso à água proveniente de
uma estação de tratamento. Em função de sua
posição socioeconômica, muitos utilizam água de
poços artesanais, rios e outras fontes
alternativas, agravando ainda mais o quadro da
saúde pública no Brasil. O quadro é
particularmente grave nas áreas rurais, onde o
percentual de domicílios particulares
permanentes não abastecidos com água da rede
geral era de 82,2%, enquanto que nas áreas
urbanas era de 10,9%. O Nordeste urbano (14,7%)
era a região com o segundo pior percentual,
atrás apenas do Norte (37%). Já no meio rural
apenas 18,3% da população tinha acesso à rede
geral de abastecimento, situação pior no Ceará
(8%) e na Paraíba (10,3%).
A questão da água tem sido foco de ações da ONU
e de uma série de ONGs. Assim, o problema tem
sido abordado por fundos de Investimentos
voltados a ações sociais, políticas públicas de
diversos países e mais recentemente com ações
privadas de grandes corporações.
O método mais utilizado na desinfecção da água
envolve a oxidação dos organismos nela presentes
pela adição de compostos de cloro. Esse
tratamento, no entanto, depende de uma
disponibilidade do agente químico que é
consumido no processo e, além disso, leva à
formação de compostos indesejados e nocivos ao
homem e ao ambiente. Tratamentos a base de
ozônio, AgNO3, luz ultravioleta e outras formas
de radiação pode ser também usados, porém
apresentam efeitos colaterais na saúde humana,
além de inconvenientes causados por sobredosagem.
Visando a oferecer soluções seguras e de grande
alcance no meio da população carente, um número
significativo de iniciativas tem lançado mão da
nanotecnologia como ferramenta efetiva e de
baixo custo para endereçar esse grande desafio
do século 21. Em comum as soluções apresentadas
utilizam nanotecnologia, entretanto, o meio e a
forma de atuação são bastante distintas:
Na Índia, país que enfrentam problemas de
abastecimento de água semelhante ao do Brasil,
foi divulgada a utilização de princípios de
nanotecnologia para purificação de água
direcionada à população carente. Trata-se de um
filtro, chamado de swach, desenvolvido pelo
Grupo Tata, que usa cinzas de casca de arroz
impregnadas com nanopartículas de prata.
Em vários outros países do terceiro mundo, a
organização não governamental Potters for Peace
tem auxiliado, desde 1998, a produção de
purificadores de água cerâmicos a base de prata
coloidal. Experiência de campo e testes clínicos
tem mostrado que estes filtros eliminam >99,9%
de agentes patogênicos presentes na água.
Em consonância com as soluções ilustradas,
pretende-se utilizar da nanotecnologia,
considerando duas formas distintas e
eventualmente complementares de abordar o
problema: o uso de dióxido de titânio sob a ação
de radiação UV e o uso de nanopartículas e
nanofilmes de prata como agente bactericida na
desinfecção da água. A competência gerada no
emprego dessas duas abordagens no estudo e a
caracterização de novos materiais cerâmicos
funcionalizados abrirá oportunidades para o
desenvolvimento de soluções criativas voltadas
para a realidade brasileira.
A ação fotocatalítica do dióxido de titânio (TiO2)
sob a ação de radiação UV proveniente da luz
solar tem sido estudada há cerca de 35 anos. A
fotocatálise heterogênea é um processo de
descontaminação vantajoso, pois é capaz de
realizar degradar poluentes orgânicos e
inorgânicos. Além disso, a sensibilidade de um
fotocatalisador à luz UV de grandes comprimentos
de onda permite que a reação seja realizada com
sucesso em países de grande incidência solar
como o Brasil.
O efeito é potencializado pelo emprego de
partículas de titânia na faixa nanométrica. Além
disso, há um efeito sinergético pelo uso
simultâneo de nanopartículas de titânia e prata.
Filmes de TiO2 modificados por deposição de
prata foram testados para a degradação
fotocatalítica de substancias orgânicas, com
aumento de eficiência de ~100% em relação ao
filme original sem prata.
Nanopartículas ou nanofilmes de prata
impregnados em elementos de filtro constituem-se
em um enorme reservatório de íons prata que em
contato mecânico com as bactérias são liberadas
de forma controlada e com ação fatal sobre as
bactérias.
Diversos estudos têm demonstrado atividade
bactericida de nanoprata contra 16 espécies de
bactérias, dentre elas as patogênicas como
Staphylococcus aureus, Salmonella typhy,
Escherichia coli e Vibrio cholerae. A
impregnação de Ag em filtros de água tem sido
bastante eficaz no esforço de reduzir a presença
de patogênicos.
Nanopartículas de Ag aplicadas na superfície de
filtros de espumas de poliuretano se mantiveram
estáveis e não foram lavadas pelo fluxo de água,
possivelmente devido a sua interação com os
átomos de nitrogênio do poliuretano. Ao tratar
água contaminada com Escherichia coli a 105 UFC/mL
com filtro de espuma de poliuretano impregnado
com NPs, a uma taxa de fluxo de água de 0.5 L/
min foi observado que ao passo de poucos
segundos, a contagem de E. coli ficou abaixo do
limite de detecção.
Filtros de cerâmica impregnados com nanoprata
foram recentemente usados em laboratório para
testar o tratamento de água de uso domiciliar.
Os filtros removeram 97.8% a 100% da quantidade
inicial de E. coli. Estes resultados mostram que
o uso de filtros de cerâmica impregnados com
nanoprata são efetivos e sustentáveis quando
aplicados na tecnologia de tratamento de água.
Métodos de tratamento de água de consumo com
base em processos catalíticos potencializados
com o uso da nanotecnologia podem ser
alternativas de baixo custo e de alta eficiência
para os métodos tradicionais, em particular em
regiões carentes e de acesso limitado a outras
técnicas, como nas regiões do semi-árido
brasileiro.
Frente a todos estes fatos, faz-se necessário o
estudo de novas tecnologias para o tratamento da
água, tanto para ser utilizado nas estações de
tratamento, quanto para levar água potável a
quem ainda não tem acesso. Os problemas
relacionados ao tratamento e a qualidade da
água, portanto, caracterizam os maiores
problemas que estão sendo abordados pela Rede de
que fazem parte UFSC, UFRN, UNAERP, IPEN e a
empresa TNS, no projeto de pesquisa
“Processamento e caracterização de superfícies
funcionalizadas com nanopartículas
antimicrobianas para tratamento de água",
referente ao Edital MCT/CNPq nº 74/2010 –
Nanociência e Nanotecnologia.
Cesar Franco/UFSC
Dachamir Hotza/UFSC.
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